A Ecologia Política dos Desastres na Ilha da Madeira: Vulnerabilidade, Adaptação e Risco, no Século XIX

  • V. Nuno Martins

Resumo

O conceito de vulnerabilidade permite analisar as causas na origem dos desastres, porém, continuam a escassear os trabalhos que utilizam uma perspetiva histórica para avaliar a vulnerabilidade, das regiões e sociedades, aos riscos naturais, biológicos e antrópicos. Este estudo adotou, assim, uma abordagem histórica para analisar os processos multidimensionais que influenciaram a vulnerabilidade de desastre da Madeira, e para elucidar sobre os processos adaptativos estabelecidos pela sociedade madeirense, de modo a reduzir o risco de desastre na ilha.
Os princípios teóricos da ecologia política foram utilizados na análise da vulnerabilidade e, enquanto métodos de pesquisa documental, foram adotados na recolha e análise das fontes primárias e secundárias. Este estudo concluiu que os desastres ocorridos em Oitocentos, na Madeira, resultaram da interação entre os agentes de perigosidade natural, biológica e antrópica, e as diferentes vulnerabilidades associadas à sociedade madeirense, tendo estas origem em processos marcadamente políticos, económicos, sociais, demográficos e ambientais.
O burocrático e ineficaz sistema de administração da Madeira, a forte dependência de uma monocultura de exportação e a organização feudal tornaram a ilha e o seu sistema social vulnerável aos desastres, condicionando a sua capacidade para se adaptar a uma geografia de risco. Estes fatores também limitaram a capacidade da sociedade insular de Oitocentos de se preparar, responder e recuperar dos diferentes desastres que assolaram a Madeira no século XIX, como as aluviões, as epidemias e as crises de fome. Apesar da identificação de processos adaptativos na ilha, designadamente, o controlo de fatores ambientais (poios e levadas), o padrão de ocupação territorial, a gestão dos recursos naturais e a mitigação estrutural e não estrutural do risco de desastre, estas adaptações revelaram-se incapazes de compensar as vulnerabilidades existentes à época, o que explica o registo histórico de desastre no século XIX. Este estudo também concluiu que as vulnerabilidades da Madeira em Oitocentos derivavam, por um lado, das vulnerabilidades criadas desde o povoamento da ilha, disseminadas ao longo dos séculos, e por outro das vulnerabilidades inerentes à sociedade madeirense do século XIX.
É, ainda, importante sublinhar que a vulnerabilidade da Madeira não foi influenciada somente por processos que tiveram lugar na ilha, mas também por dinâmicas nacionais e globais. Com base nestas conclusões, foram tecidas, neste trabalho, um conjunto de apreciações, de modo a contribuir para a atual governação e gestão do risco de desastre na Madeira.


Palavras-chave

Desastre; Vulnerabilidade; Adaptação; Ecologia Política; Risco; Dimensão Temporal; Escala Espacial; Abordagem Histórica; Ilha da Madeira.

Publicado
2019-06-06
Edição
Secção
Artigos / Ensaios